segunda-feira, 2 de setembro de 2013
domingo, 31 de março de 2013
Sampat Pal Devi
Por Rita Mota Sousa*
Tive, este fim-de-semana, dois gratíssimos prazeres: o de conhecer mais de perto Sampat Pal Devi, e o de Sampat Pal Devi me ter sido apresentada por Kim Longinotto – com quem pude brevemente conversar - documentarista e autora do filme “Pink saris”.Para quem não sabe, Sampat Pal Devi é a figura central, fundadora e mentora do grupo de activistas feministas “Gulabi Gang”, que iniciou a sua atuação no Uttar Pradesh, um dos Estados mais pobres da Índia - aquele onde têm ocorrido as terríveis violações coletivas de meninas e jovens que vêm sendo noticiadas na imprensa internacional e nas redes sociais.Na Índia a partir dos 12 anos é possível ter um casamento combinado – e reforço aqui o combinado já que com esta idade é muito pouco provável que os noivos sintam amor romântico e consigam decidir casar-se. As meninas e mulheres nesta situação não estudam, não trabalham e ficam na completa dependência da família do marido, e do marido. Frequentemente esta situação de dependência expressa-se por via de um sentimento de propriedade que resulta em violencia física, psicológica e sexual contra a mulher.É neste contexto de submissão completa, e de redução da condição da mulher à de escrava da casa e da família, que Sampat Pal vem rebelar-se contra uma arquitetuta social profundamente tradicional, conservadora, classista e machista.Não me cabe aqui caracterizar e falar sobre a situação da mulher no Uttah Pradesh – não sei mais do que o meu interesse como leitora de jornais me permite saber, o que é muito pouco. Venho focar-me e dar a conhecer essa extraordinária mulher que o filme Pink Sari homenageia.
Foi somente muito depois de ver o filme que compreendi que estava a ver Sampat como um personagem ficcional, de tão descontextualizada que é a sua vida. Não é fácil apreender uma feminista tão afirmativa vestindo um sari em um pobre e rural Estado indiano.
É extradordinário observá-la em acção, sozinha como uma ilha e digna como uma estátua, reagindo contra um sistema de castas e patriarcal mas que se encolhe perante a força da sua presença. Sampat tem a virtualidade de verbalizar e de extrair do dominio doméstico e familiar para a esfera comunitária as agressões sexuais e físicas, e as situações de exploração da mulher normalmente silenciadas. Fá-lo corajosamente, enfrentando, sem pares e na mais estrita solidão grupos de homens e de mulheres que dificilmente compreendem a igualdade que ela reclama. Pela distribuição de saris cor-de-rosa, arregimenta mulheres para a sua causa. O sari cor-de-rosa é o elemento que soma unidade e força àquela causa frágil e incompreendida.Compreendo o seu narcisismo e a sua expressão defensiva – que, soube, já lhe terem sido criticados. Sampat devia ser odiada por muitos, pelo que admirar-se a si própria é uma questão de sobrevivência. E compreendo também que não possa ser delicada e cortês na sua expressão: é a única forma que tem de conservar e fazer respeitar aquele espaço arduamente conquistado.A sua coragem e a sua força de carater são uma inspiração, pelo menos para mim que tive de ler e conversar muito e que, nesse processo, beneficiei de muito espaço para respirar, para compreender o que Sampat inteligiu sozinha e em condições de perigosa asfixia.
* Rita Mota Sousa é mestranda em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
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